sexta-feira, 25 de março de 2016

Linha da Bola

Futebol: a arte e a guerra

Jayme Eduardo Machado (*)

Muito já se disse  sobre Johan Cruyff, mas ainda haverá sempre algo  mais a dizer.
Na arte – e quem disse que futebol não tem arte? – costuma-se distinguir os ícones de uma especialidade em duas categorias: os que foram expoentes em  determinada escola, e os que inauguraram uma nova escola. Em quaisquer delas, a consagração é o limite.  Mas um lugar especialíssimo no panteon dos ídolos está reservado aos criadores. O holandês foi as duas coisas: símbolo de uma escola – a do futebol total – esta que se aperfeiçoou até o Barcelona de Guardiola e seus seguidores e que todos procuram imitar-, e introdutor, no gramado, daquela forma solta de aparecer em todas e não jogar em nenhuma posição especial. O “cavalinho de ouro” do alegre carrossel holandês de 74 girava a bola com alegria num balé infinito, sem guardar posição. Dele não se pode dizer onde jogava, mas onde não jogava: talvez, no golo.


Mas sabemos também que a Holanda perdeu a Copa para a Alemanha, na final de 74. E de há muito a respeito me ponho intrigado. O treinador Rinus Michels era quem comandava o time desde a casamata, e Cruyff estava lá no campo, fazia a “laranja” rolar com facilidade, e até fizera o primeiro gol, no início do giro do “carrossel”. Os alemães viraram e repetiram a façanha de derrotar o favorito, como fizeram em 54 contra a Hungria.


De tanto tentar decifrar a mágica daquele resultado, construi eu mesmo minha fantasia. A filosofia do Rinus Michels, sabemos todos, era : “o futebol é guerra!”. Cruyff, seu comandado, parecia introduzir no mantra escolhido pelo seu treinador, a componente “arte”, e  que, diante daquele adversário, a Alemanha, acabaria mesmo sendo derrotada. Porque, convenhamos,  ninguém entende e é mais experiente em guerras do que os alemães, tanto que venceram o jogo, dando razão a Michels. Então é isso: quem  ganhou foi a  “arte da guerra”, mas quem entrou para a história foi a “arte do futebol” de quem  perdeu aquela guerra.   

(*) Jayme Eduardo Machado -  Membro do Conselho Consultivo do Grêmio.