Cadê o espírito copeiro?
Roberto Thomé (*)
O empate com o San Lorenzo foi mais uma daquelas frustrações que têm assombrado o Grêmio nos últimos anos. Quando tudo indicava um viés de alta depois da goleada sobre a LDU e mesmo do empate no Gre-Nal, o retrocesso na Arena quarta-feira deixou o torcedor com a pulga da desconfiança atrás da orelha. A classificação para as oitavas de final da Libertadores deixou de ser provável para virar apenas uma possibilidade. E quase remota, considerando-se a obrigação que o Grêmio passou a ter de buscar estes pontos perdidos fora de casa e a atuação lamentável que teve na estréia contra o Toluca no México. O consolo, se é que ele existe, é que o caso tricolor não é isolado. Ou seja, o Grêmio não está sozinho neste começo de Libertadores feito de altos e baixos.
A verdade verdadeira é que tem sido difícil para os clubes brasileiros nos últimos anos fazerem valer o seu poder de investimento sobre a vizinhança. Não importa a quanto chega o orçamento de cada um que consegue se classificar para disputar a maior competição do continente. Os milhões de reais gastos com renovações, contratações e folhas de pagamento não se refletem no campo de jogo. É incrível!
O exemplo do Palmeiras. O Palmeiras gasta cerca de R$ 11 milhões por mês e patina cada vez que precisa enfrentar um rival argentino ou uruguaio ou paraguaio ou chileno. Foi assim contra o Nacional que não tem 10% daquele montante para pagar seus jogadores. Perdeu por dois a um em casa com um jogador a mais desde os 42 minutos do primeiro tempo - a expulsão de outro jogador do Nacional no finzinho do jogo não conta - e ficou a um passo da eliminação. Mandou o técnico Marcelo Oliveira embora e espera por Cuca para tentar dar uma virada no seu enrosco. Como o Grêmio, o Palmeiras terá que vencer fora dos seus domínios para se classificar.
O Corinthians também anda decepcionando sua torcida. Ganhou na Bacia das Almas do Cobresal no Chile, venceu o Independiente Santa Fé da Colômbia no Itaquerão e perdeu para o Cerro Porteño no Paraguai. Vive numa montanha russa quase tão destrambelhada quanto Palmeiras, Grêmio e São Paulo. Até agora Tite não deu jeito no Corinthians. Mas a perda de qualidade com a debandada geral do time campeão brasileiro no ano passado alivia a barra do gaúcho de Caxias. A exceção parece ser o Atlético Mineiro, só que o empate com o Colo Colo no Chile deu um chega pra lá na euforia mineira.
O São Paulo, que parecia o pior de todos os brasileiros e já estava meio condenado a ver pela televisão a sequência da Libertadores, ganhou uma sobrevida importante no grupo 1 a partir do empate em um a um com o River Plate em Buenos Aires. Não foi brilhante, mas encarou os argentinos sem medo. "Resgatou sua mística", disse o técnico Edgardo Bauza. O São Paulo teve atitude, como se diz. Foi valente, guerreiro, enfrentou uma pequena guerra no Monumental de Nuñes como se deve, com raça e espírito copeiro.
Copeiro!
Que palavra mágica para encher de saudades os gremistas!
Acompanhei bem de perto, como repórter da RBS TV, a primeira vez que o Grêmio chegou lá na Libertadores. Era um timaço aquele comandado por Valdir Espinosa: De León, Osvaldo, Renato e companhia. O Grêmio atropelava seus adversários e quando faltava futebol, por mais estranho que possa parecer isso às vezes acontecia, ingredientes como determinação, bravura, desprendimento, compensavam tudo.
Também estive com o Grêmio na campanha do segundo título, em 1995. Era repórter da Rede Globo. Menos brilhante tecnicamente, porém mais forte do ponto de vista coletivo, o Grêmio de Danrlei, Dinho e Paulo Nunes não tinha medo de nada. Enfrentava argentinos, uruguaios e quem mais aparecia pela frente, de peito aberto. Quando a bola do time simplesmente não era suficiente, os gaudérios daquele time arrancavam sei lá de onde o mesmo repertório espiritual da turma de 83 para seguir em frente. Era ruim de parar o Tricolor naqueles tempos.
Acho, pois, que chegou a hora daquele velho espírito copeiro envolver esse time. A única forma de manter vivo o sonho do Tri.
(*) Roberto Thomé – Jornalista, repórter da Rede Record/SP – Editor do blog www.robertothome.com.br