quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Extracampo

Senhores da Casa Grande do Futebol Brasileiro

Thiago Suman (*)

Na obra Casa Grande & Senzala, o sociólogo Gilberto Freire faz uma contextualização socioeconômica brasileira partindo da análise do patriarcalismo. Ele destaca que “o patriarca proprietário da terra era considerado dono de tudo que nela se encontrasse”. Não é diferente quando se fala do futebol e de seus “senhores”, mantenedores dessa historia dicotômica.

Os recentes escândalos da CBF descortinaram sua nefasta administração – que vai de furto de medalha até desvios de milhões de dólares -. Só ficou mais exposto esse pantanoso cenário, que todos sabíamos ser um bang-bang sem mocinho. Porém, nunca imaginamos acompanhar o esfarelamento da alta cúpula; essa dos garbosos senhores de terceira idade, de cabelo em tonalidade acaju, de ternos bem cortados e que matam a ansiedade girando o gelo do copo de whisky com o dedo. Eles caíram, mas a erva-daninha cresce ainda que em solo infértil.

 O futebol ficou amarelecido, não em talento e virtuose, mas em moralidade.  Com a prisão do ex-presidente José Maria Marin, o sucessor Marco Polo Del Nero se viu acuado e pediu afastamento do cargo. Mas antes, organizou um maquiavélico joguete: Sabedor de sua punição no Comitê de Ética da FIFA, expulsa Marcus Vicente, presidente interino, que estava questionando as despesas e altos salários da Confederação e então reúne dois dos cinco vices e com uma eleição relâmpago passa a cadeira para o vice-presidente mais idoso. Com a ciranda dos cargos, o comando provisório decaiu sobre Antônio Carlos Nunes, 77 anos, chamado de Coronel Nunes, presidente da Federação do Pará.

E sua primeira manifestação foi calamitosa. Anda verde no cargo, saiu sozinho no saguão e quando interpelado por repórteres, afirmou: “Não há corrupção no futebol brasileiro”. Assim, foi blindado pelos ardilosos mentores, aparecendo pouco, falando menos ainda.

A sua primeira ação se mantém na contramão da revitalização institucional: Se lançou em rompante contra a Primeira Liga – proposta independente organizada em paralelo pelos principais clubes do RS, SC, PR, MG e RJ-. Em nota, a CBF ameaçou penalizar os integrantes do torneio. Mesmo que o discurso seja evasivo, Nunes pincelou sua diretriz conforme a ditatorial conduta dos patriarcas da CBF. É inaceitável para os “donos do campinho” a atitude de organizar um certame sem sua chancela.

A Lei Pelé prevê a possibilidade do surgimento de ligas autônomas – sem intervenção de outras entidades administrativas – e com base nesse argumento jurídico-legal, a Liga se municiou e encarou os discursos da Confederação, aportados na opressão, e assim conseguiu curvar a cerviz de seu algoz.

Na quinta-feira, 28 de Janeiro, já com jogos da rodada inaugural realizados, uma nota oficial foi a “bandeira branca” erguida. Nela, a CBF reconhece a competição e libera as federações locais para apoiarem a iniciativa. Porém, a resolução frisa que o caráter da Liga é amistoso. Por óbvio que essa rendição é estratégia para não se ver ainda mais trincada em meio ao turbilhão de casos que fragilizam sua imagem. A vitória institucional da Primeira Liga – amparada pelo argumento Constitucional – é a reação da Senzala. “Sinhozinho” baixa o chicote, que o povo escravo não vai se calar.

(*)Thiago Suman, Apresentador e narrador da Rádio Grenal, professor de Filosofia e Sociologia