sábado, 20 de fevereiro de 2016

Começo de Jogo

Aprender a jogar com um a mais

Júlio Sortica (*)

Cada treinador tem seu estilo, seu sistema de jogo, suas estratégias, sua forma de pensar o futebol, de dar orientar sua equipe, estudar a capacidade e o potencial do seu grupo, pensar em soluções efetivas, as substituições, enfim, seu universo de trabalho. No entanto, acompanho futebol diretamente há mais de 40 anos e até hoje não encontrei um técnico sequer que fosse capaz de explicar como tirar vantagem quando seu time fica com um jogador a mais diante de uma expulsão na equipe adversária. E gastei tempo procurando por algo no Google. Deve haver, mas não achei. Por isso, tomo o caso da derrota do Grêmio para o Toluca na última quinta-feira, apenas como um exemplo importante, talvez o mais recente. Poderia ser outro time qualquer em análise.

Em cada partida um técnico pode ordenar que seu time adote uma certa tática. Cada tática tem suas vantagens, mas também suas desvantagens, portanto ele deve escolher com cuidado o que pretende fazer. Mas e se algo inesperado acontecer, como por exemplo, ficar com um jogador a menos? Às vezes, dependendo da importância do jogador, pode ser uma tragédia. Mas e se ficar com um jogador a mais, como proceder?  Não lembro de ter visto algum treinamento neste sentido em todas as minhas milhares de coberturas de treinos e de jogos. Algum técnico pode ter feito esse treino de forma secreta? Duvido. Já vi muitos treinamentos com encurtamento de campo para saber como jogar em espaço reduzido, aprimorar a marcação, criar alternativas de conta-ataques etc. Mas como tirar vantagem com um jogador a mais, não, não vi.

E isso é tão importante, mas os técnicos não estão preparados. E os atletas também não. Senão, vejamos o que ocorreu com o Grêmio diante do Toluca desde os 36 minutos do primeiro tempo: piorou. Ou por subestimar o adversário, achar que ia ganhar ao natural, ou por falta de inteligência, do treinador e dos atletas. Era fácil perceber qual a estratégia do Toluca: avanço dos alas, mais do Flores pela direita, e progressão dos atacantes Esquivel e Arellano. E foram vários cruzamentos para a área. Pois além de não alterar o esquema tático do Grêmio para evitar os avanços do Esquivel, o técnico Roger parecia sonolento. E após a expulsão de Velasco, não soube tirar proveito da vantagem.

O Grêmio, ao invés de ocupar o espaço que o Toluca, OBRIGATORIAMENTE cedeu porque ficou com um a menos, ainda recuou. Foram os mexicanos que pressionaram e logo no início surpreenderam com um gol a menos de um minuto. Pois o Grêmio, que deveria reagir porque tinha um jogador a mais, continuou retraído. Roger e seus auxiliares não souberam reprogramar a estratégia, mudar o estilo de jogo para pressionar, superar o Toluca, que além da vantagem numérica, ainda era mais valente, mais guerreiro. O Giuliano estava apático, assim como o Luan e o Éverton, e tanta fazia tirar um ou outro, mas colocar o Fernandinho, supostamente para “abrir a defesa” do Toluca, foi outro erro. Aliás, Fernandinho é um erro, pois não tem qualidade para compor o grupo do Grêmio. E mesmo com um a mais o Grêmio não conseguia nem a vantagem da posse de bola, nem o domínio do espaço e sequer chutar a gol.

As outras trocas foram circunstanciais, pois Henrique Almeida ainda está desentrosado e Lincoln ficou com uma responsabilidade talvez maior do que poderia assumir naquele momento. Mas pergunto: o que Roger pensou em fazer quando Velasco foi expulso? Será que nas suas anotações existe esta preocupação de saber o que fazer para que a vantagem numérica seja traduzida em vantagem efetiva e gols? Duvido. É um bom assunto para a reportagem questionar.

(*) Júlio Sortica - Jornalista