sábado, 20 de fevereiro de 2016

Artigo

As mazelas do futebol do interior

Gilson Piber (*)

Fazer futebol profissional no interior gaúcho sempre foi um enorme desafio, principalmente pelas dificuldades financeiras impostas aos clubes. A velha máxima era buscar um presidente com posses para que pudesse, nas fases complicadas, para não dizer sempre, colocar dinheiro do próprio bolso para saldar débitos e honrar compromissos assumidos. Isso até existe na atualidade, mas em menor número.

Pagar salários, hospedagem e alimentação para os jogadores e membros das comissões técnicas requer um esforço quase desumano para os dirigentes, alguns verdadeiros heróis, outros oportunistas em busca de visibilidade na mídia. Aliado a isso, o momento econômico brasileiro não é dos melhores e investir em futebol, e no interior do Estado, não está entre as prioridades das empresas. Se os patrocínios e apoios ficam aquém da expectativa, de onde tirar dinheiro para bancar as despesas? A resposta é complexa e exige um estudo técnico confiável da realidade do nosso futebol.

Se pegarmos a Série A do Gauchão 2016, a região metropolitana de Porto Alegre domina o cenário. Além da dupla Gre-Nal, tem São José, Cruzeiro, Aimoré e Novo Hamburgo. Depois, está a Serra, com Juventude, Veranópolis e Glória. A zona Sul está representada pelo Brasil-Pel e São Paulo-RG, o Planalto pelo Passo Fundo, o Vale do Taquari pelo Lajeadense e o Norte pelo Ypiranga. Há uma centralização de clubes da Capital gaúcha e cidades próximas, bem como da Serra, áreas onde o PIB gaúcho é maior. As equipes do interior contam com cerca de R$ 1 milhão da cota de televisão. Clubes das regiões Centro e Fronteira Oeste estão alijados da disputa.

Na Divisão de Acesso, podemos dizer que a região Centro tem mais representantes: as duplas Rio-Nal, de Santa Maria, e Ave-Cruz, de Santa Cruz do Sul, e mais o Guarani-VA.  A Serra conta com Caxias, Brasil-Far e Esportivo. Do Sul, vem o Pelotas e da Fronteira Oeste, o São Gabriel. O restante do mapa congrega o Marau (Planalto Médio), o União Frederiquense (Alto Médio Uruguai), o São Luiz, o Tupi e o Panambi (Noroeste), e o Santo Ângelo (Missões). Algumas cidades têm indústrias, mas a maioria depende do setor de prestação de serviços e da agropecuária. Economia em turbulência, investimento em baixa.

A Segunda Divisão de 2016 teria 15 equipes, mas quatro desistiram pela crise financeira: Palmeirense, 14 de Julho, Riopardense, Garibaldi. Restam na disputa a dupla Ba-Gua, de Bagé, Rio Grande e Farroupilha (Sul), Sapucaiense, Estância Velha e Igrejinha (Região Metropolitana), Gaúcho (Planalto), Nova Prata e Flores da Cunha (Serra) e Atlético-Ca (Noroeste). A situação não é muito diferente da enfrentada pelos clubes da Divisão de Acesso, competição da qual também só um time sobe de divisão.

Mas e o investimento em categorias de base não serviria para formar atletas para a equipe principal e até posterior venda? Sim, mas se os recursos já são escassos para o time de cima, imaginem o que resta para a garotada? Alguns dirigentes optam pelas parcerias com empresários, na maioria das vezes malsucedidas. Melhorar a gestão dos clubes do interior é uma necessidade, porém, isso não ocorre a curto prazo. Depende de planejamento sério e gestores competentes. É uma caminhada, onde os primeiros passos devem ser dados com convicção, sem deixar que a emoção do dirigente torcedor supere a razão do gestor administrador. Ainda, assim, dificuldades podem surgir no decorrer do percurso. O tema é complexo e merece uma boa discussão.

(*) Gílson Piber - Jornalista da UFSM, comentarista da Rádio Guarathan, de Santa Maria (RS) e professor do curso de Jornalismo da Unifra.