sábado, 27 de fevereiro de 2016

Artigo

Desemprego, futebol e morte

Gilson Piber (*)

Fico muito triste e chateado quando vejo jornalistas serem demitidos. Ao contrário do que alguns pensam, jornalista também é trabalhador, tem família e compromissos a saldar. O mesmo vale para os envolvidos no nosso futebol, principalmente do interior gaúcho. A situação financeira da maioria dos clubes que vão disputar a Divisão de Acesso e a Segunda Divisão (a chamada Terceirona) é de penúria. Nem as próprias comunidades interioranas conseguem mais ajudar na manutenção dos clubes, fruto de uma crise econômica que duela com o campo político em nível nacional. Lamentavelmente, todos perdem, o bilheteiro, o tio do amendoim e da pipoca, a tia da rapadura, os jogadores que têm mulher e filhos para sustentar, os técnicos e colegas de comissão, os maqueiros, os homens que cuidam do campo, e os próprios dirigentes, alguns abnegados e outros nem tanto.

Não sou ainda um idoso, mas sou do tempo do Campeonato Gaúcho disputado quase o ano inteiro, no calor do verão e no frio do inverno. De ir, em Santa Maria (RS), ao Estádio dos Eucaliptos, do Riograndense, para ver Borba, Adaílton, Sadi, Neca, Betinho, Batista, Ciro, Danilo, Joacir, Saraco, Guinga, Chicota, Muller e cia. No Estádio Presidente Vargas, do Inter-SM, brilhavam Roberto, Donga, Beto, Hélio Oliveira, Robson, Gerson, Valdo, Nei, Toninho e outros tantos. A dupla Gre-Nal sofria para sair com a vitória do Coração do Rio Grande. Isso quando não perdia.

Hoje, os campeonatos são curtos e os jogadores assinam contrato com um clube, são emprestados a outro e voltam só para a fase final. Se o time conseguiu avançar de fase, o atleta ainda atua. Do contrário,  já busca um lugar em clubes do interior de Santa Catarina e do Paraná ou até troca de profissão para sobreviver.

O certo é que do jeito que a situação está não pode ficar. As competições precisam ser mais longas para as equipes do interior do RS, talvez, regionalizadas, e com um patrocínio que garanta a sobrevivência mínima dos clubes e revele pratas da casa. Quem vai se associar a um clube que joga somente três ou quatro meses por ano? O único produto oferecido é o futebol. Para as equipes que disputam a Série A do Gauchão, receber R$ 1 milhão de cota da TV, torna menos difícil a sua vida. Para os times das outras divisões, o “Charmoso Gauchão” tem mais cara de filme de terror.

Parafraseando a música “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar”, o futebol do interior não pode morrer. Porém, atualmente, ele respira por aparelhos, a exemplo de muitos jornalistas, que anoitecem tristemente desempregados.

(*) Gilson Píber - Jornalista da UFSM, comentarista da Rádio Guarathan, de Santa Maria (RS), e professor do curso de Jornalismo da Unifra.