sábado, 9 de abril de 2016

Artigo

Falência de órgãos

Roberto Thomé (*)

A decisão da Secretaria de Segurança Pública de proibir torcida visitante nos clássicos do futebol paulista anunciada dias atrás é mais uma daquelas jaboticabas que, de tempos em tempos, o Brasil produz com sua capacidade criativa aparentemente ilimitada. A teoria extraída desta fruta selvagem, você sabe, se propõe a defender e sustentar soluções que só existem por aqui, como se o mundo que habita o andar de cima no contexto mais geral da chamada civilização ocidental-judaico-cristã tivesse que se curvar diante de sacadas inovadoras para velhos problemas e antigos dilemas sociais.

Pois bem, depois de muitos estudos - é o que eu presumo - e de arrastadas discussões em fóruns de debate - é o que eu imagino - os intelectuais que se dedicam a tratar da violência no futebol brasileiro chegaram à conclusão de que o fim das brigas e dos assassinatos está na ausência de rivais nas arquibancadas durante os clássicos. É isso, proibe-se a presença de sãopaulinos nos confrontos em que o Santos é mandante e ponto final. Socos, pontapés, pauladas, facadas e tiroteios não se repetirão mais. O salve-se quem puder de todos os dias de grandes jogos está resolvido.

O problema básico desta decisão é um só: os encontros macabros entre os trogloditas de torcidas organizadas se dá longe dos estádios. São embates geralmente marcados pela internet e com as exceções de sempre reservadas para pequenas emboscadas. A morte mais recente de um cidadão em São Paulo que, aliás, nada tinha a ver com a rivalidade letal nos dias de hoje entre corintianos e palmeirenses foi a mais de 30 quilômetros do Pacaembu onde os dois clubes disputaram o clássico. Será que as autoridades não têm conhecimento dessa estratégia? É inacreditável, mas até os pregos fixados na ponta dos paus, que servem de instrumento para literalmente abrir cabeças adversárias, sabem disso.

No país em que acontecem perto de 60 mil assassinatos por ano a violência incontrolável das torcidas organizadas é só uma evidência a mais da falência do Estado. Neste caso, alguns bandidos até que são presos, mas a punição de fato não chega. A legislação é leniente, segue o padrão geral que afeta outros setores da sociedade. Tanto isso é verdade que muitos torcedores flagrados numa batalha aqui e em outra ali reaparecem valentões e armados mais adiante. É a certeza da impunidade.

E assim vamos levando a vida, acumulando derrotas. O Brasil prefere investir na criação de jaboticabas em vez de seguir exemplos eficientes que deram certo.

Na Inglaterra, por exemplo, o combate à violência deu muito certo. Lá os hooligans infernizaram por décadas a vida de quem queria apenas se divertir com um bom jogo de futebol. Hoje eles estão banidos dos estádios. Houve um trabalho integrado, uma cooperação efetiva entre o Ministério do Interior, a Polícia Metropolitana e a Federação Inglesa. Os torcedores violentos foram identificados e levados à Justiça. Cumprem penas de prisão. Os que estão livres da cadeia precisam se apresentar em delegacias nos horários de jogos. Tudo para evitar a reincidência.

Simples desse jeito.

(*) Roberto Thomé – Jornalista – Repórter da TV Record/SP – Editor do blog www.robertothome.com.br