sexta-feira, 1 de abril de 2016

Artigo

Rivalidades e o Rio Tejo

Roberto Thomé (*)

O fim de semana será marcado por mais um clássico - "El Classico" como o chamam os espanhóis - entre Barcelona e Real Madri. Catalães e castelhanos frente a frente no maior evento esportivo mundial com uma platéia estimada em 700 milhões de almas espalhadas pelos quatro cantos do planeta. Nenhum outro confronto é capaz de reunir tantas estrelas em campo ao mesmo tempo: Méssi, Neymar e Suárez de um lado, Cristiano Ronaldo, Bale e Benzema de outro.

Tudo o que diz respeito a este jogo é superlativo. O dinheiro envolvido, as ambições de conquista, as implicações históricas. Um Barcelona e Real Madri sempre haverá de nos remeter à ditadura franquista que atravessou quatro décadas, do fim dos anos 1930 até a metade dos anos 70. Apaixonado por futebol, Francisco Franco fez do Real Madri um projeto de Estado. Bancou investimentos, ajudou o clube a se modernizar e, o que é mais importante, a acumular títulos. A riqueza financeira e esportiva do maior clube do mundo tem origem naquelas ações do general. Uma das atitudes preferidas do comandante era premiar jogadores e dirigentes com medalhas e honrarias não distribuídas a outros times vencedores.

No loutro lado do país, o Barcelona se firmou como um centro de resistência à ditadura militar. O estádio Camp Nou foi um reduto de defesa contra a violência e o autoritarismo. De lá, os catalães podiam gritar contra o regime em sua própria língua - o catalão - que estava banida das terras espanholas.

O inferno da ditadura franquista passou, os dois clubes cresceram e entraram no século 21 como potências globalizadas. Em termos econômicos, os dois gigantes esmigalham seus concorrentes na Alemanha, na Inglaterra, na Itália, no Brasil. Real Madri e Barcelona concentram as maiores receitas do esporte no mundo. Cada um fatura mais de 600 milhões de euros por ano (R$ 2 bilhões). Agora, números para fazerem jorrar no rosto de cada torcedor brasileiro lágrimas de inveja branca do bem: o Palmeiras, clube que mais faturou no futebol brasileiro em 2015 de acordo com estudo da consultoria Itaú BBA, alcançou míseros R$ 325 milhões. O Internacional, quarto colocado neste quesito, acumulou R$ 270 milhões. O Grêmio com R$ 176 milhões ficou apenas em oitavo lugar.

Os índices financeiros dos clubes tupiniquins são modestos e obviamente incomparáveis aos de Barcelona e Real Madri. Mas, cá entre nós, isso nem chega a importar quando a gente constata que a paixão e o amor pelas nosas coisas estão acima de tudo e que no futebol, mais do que em qualquer outra esfera desta nossa existência, as leis da compensação podem perfeitamente funcionar contra o poder econômico e a riqueza. Vá alguém por aí dizer que a rivalidade Gre-Nal é menor que a de Barcelona e Real Madri. "Gre-Nal é Gre-Nal", amigo!

Por tudo isso, sigamos os versos do grande poeta que há mais de dois séculos abençoava por assim dizer os humilhados de todas as latitudes:

O Tejo é o mais belo rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é o mais belo rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa).

(*) Roberto Thomé – Jornalista, repórter da Rede Record/SP e editor do blog www.robertothome.com.br