Tirando leite de pedra
Carla Seabra (*)
Três jogos em apenas uma semana. Exigir vitórias em todos eles - com um time apenas bom, não excepcional - é como tirar leite de pedra. Esta foi a inglória tarefa do Roger Machado nos últimos sete dias. A vitória contra a LDU, pela Libertadores, foi animadora para o grupo. Depois, veio o Gre-Nal, pelo Gauchão e pela Primeira Liga, que acabou num empate favorável ao Inter que, claramente, foi em busca do empate na Arena. E veio, junto, a lesão do Bolaños, depois de uma cotovelada - sem intenção - de Willian, ainda no primeiro tempo do clássico. Isso deve ter mexido muito com o pessoal, vide a atuação sofrível do Grêmio, no segundo tempo.
A grande esperança de gols do tricolor mal havia começado a mostrar a que veio e foi afastada dos jogos pelos próximos 30 dias (a cirurgia foi um sucesso). A vontade de vencer pelo colega machucado parecia ser o combustível do grupo gremista para a partida seguinte, pela Libertadores. Contra o San Lorenzo, abençoado pelo Papa Francisco - afinal, é o time de coração do pontífice -, na Arena, o começo foi morno, como tenho repetido nestas colunas da Tribuna da Bola, mas fez o gol e engrenou. Só que, depois que o SL empatou, nada mais deu certo.
Minha observação é a mesma de sempre. O Grêmio erra muitos passes, o jogador que está com a bola não sabe qual colega está mais bem colocado - falta visão de jogo -, ou passa a bola quando o outro está atolado com dois ou três marcadores, e ainda passal errado, muitas vezes proporcionando o contra-ataque do adversário. A defesa, não fosse o gigante Geromel, sei não, poderia ser bem pior para o Grêmio. Um detalhe: mesmo com a queda de rendimento na segunda etapa, e alguns erros assustadores na cobertura, gostei do comportamento do garoto Wesley quando ia ao ataque. A subida com velocidade me fez lembrar do nada técnico, mas aplicadíssimo Pará. Wesley precisa melhorar a cobertura, assim pode ganhar novas chances.
O que assustou o torcedor, porém, foi o esquema puro adotado pelo técnico gremista: “puro desespero”. No final do segundo tempo meteu um 4-2-4 quase suicida. O buraco no meio do campo era uma cratera impreenchível - exceto pelos argentinos. Àquela altura, era tudo ou nada. Por sorte, o juiz - mais ou menos - encerrou o que poderia ser pior.
A hora é de descansar, se isso for possível. Time misto ou reserva deve ser a saída de Roger no próximo jogo. E um chá de “acorda que tem mais jogo difícil por aí” cai bem nesse momento. Melhor do que tirar leite de pedra.
(*) Carla Seabra – Jornalista, Editora na Rede Record/RS