quinta-feira, 10 de março de 2016

Artigo

Taça Jules Rimet: um pouco de atenção, por favor!

André Malinoski (*)

O futebol é, além de muitas coisas, um mundo de fantasia. Há poucos dias não demos a atenção devida a uma pequena nota publicada nos rodapés dos jornais e em diversos sites. A FIFA estaria iniciando buscas para encontrar a Taça Jules Rimet.

O troféu foi roubado da sede da CBF no Centro do Rio de Janeiro em dezembro de 1983. Pelo que se apurou na oportunidade, apesar de ninguém ter provado nada, a taça teria terminado sua trajetória derretida por criminosos dispostos a lucrar com o seu ouro.

Acredito que faltou um pouco de sensibilidade nesses últimos dias a muitos veículos de imprensa a respeito desse tema. A Jules Rimet era o símbolo maior da disputa da Copa do Mundo. O Brasil ganhou o direito de ter a sua posse em definitivo depois de conquistar três Mundiais antes dos adversários, lá em 1970.

Quis o destino ou o total despreparo da CBF que essa verdadeira relíquia da história do futebol fosse levada por ladrões que tinham a informação de que o troféu estava exposto sem maiores cuidados, enquanto uma réplica ficava guardada em um cofre da entidade máxima do futebol brasileiro.

Alguém pode pensar que, no final da contas, era apenas uma peça de ouro e que nem estava mais em disputa. É verdade, era uma peça de ouro e havia sido substituída após o tricampeonato brasileiro pela Taça FIFA. Na Copa de 1974, vencida pela então Alemanha Ocidental, Beckenbauer ergueu o novo troféu para o alto.

Enquanto esteve em posse da seleção da Itália, que ganhou os Mundiais de 1934 e 1938 (depois ganharia ainda em 1982 e 2006), foi preciso fazer muito esforço para que a Jules Rimet não caísse nas mãos dos fascistas, que a procuravam para Benito Mussolini. Dizem que foi escondida até dentro de uma caixa de sapatos pelo dirigente Ottorino Barassi, que evitou que a peça fosse confiscada por esses mesmos fascistas.

Muito tempo depois, durante a Copa de 1966, a Jules Rimet estava exposta em uma vitrine em Londres, pertinho da Scotland Yard. Da noite para o dia, pimba: o troféu sumiu e ninguém viu nada. Golpe de marketing ou não, a taça foi encontrada enrolada em jornais velhos em uma praça. O salvador da Copa do Mundo foi um cãozinho vira-latas chamado Pickles. Seu prêmio foi ganhar pelo resto da vida o fornecimento de deliciosos petiscos caninos de uma empresa de alimentação do gênero.

Por tudo citado, não podemos sequer pensar em desculpas para passarmos quase em branco sobre a Jules Rimet. A overdose de assuntos futebolísticos dos dias recentes, como o Gre-Nal e suas consequências, os jogos da Libertadores da América e da Liga dos Campeões, a Primeira Liga, o Gauchão e as convocações de Dunga até podem atrapalhar nossa atenção em relação ao resto. É muita coisa, de fato, porém precisamos aprimorar nosso filtro jornalístico.

Muitas coisas ditas aqui são fatos, com comprovação histórica. Se o futebol pertence e precisa de um mundo de fantasia, necessita igualmente da realidade. E a realidade é que a FIFA vai mesmo tentar encontrar a Taça Jules Rimet, que até agora achamos que foi derretida. Por acreditarmos que é muita ficção, não temos o direito de ignorar algo tão importante com o uso de pequenas notinhas de rodapés. Os leitores merecem muito mais que o nosso simples julgamento.

(*) André Malinoski – Jornalista, Editor de Esportes de O SUL – autor do livro “Os Gigantes Estiveram Aqui”