sexta-feira, 4 de março de 2016

Linha da Bola

Sai a razão, entra a paixão!

Jayme Eduardo Machado (*)

       Ingressando na faculdade, tinha 18 anos, procurei o Antonio Carlos Resende na Rádio Gaucha em busca de alguns trocados para ajudar nos estudos, e no domingo seguinte já estava em campo. Com um microfone “Taylor”, pesando quase um quilo, estava agachado junto à mureta que demarcava a escadaria do túnel que havia no Olímpico, à direita do chamado pavilhão social. Minha missão era aguardar a chamada do narrador para reportar a movimentação de Oswaldo Rolla – o Foguinho –de pé, um metro atrás de mim,  do outro lado da mureta. A visão de um homenzarrão temido por todos, que projetava sua sombra sobre o repórter neófito, era assustadora.

       Em campo, a dupla famosa para o primeiro Grenal de 1960. Bola vai, bola vem, alguém cruzou para a área colorada e Poleto e Ary Ercílio saltaram com Joãosinho. O atacante do Grêmio caiu sangrando no lábio e o narrador chamou o nome que eu mais temia ouvir: “... oh Jaymeeeeeeee!  Com o polegar trêmulo acionei o botãozinho do microfone e mandei: “... lance casual, não houve nada !!!  Mesmo com os fones a me limitar a audição, senti, o chão tremer atrás de mim. Pedro Pereira, diretor de futebol, se esforçava, cabeleira desgrenhada, para conter o avanço de Foguinho sobre o repórter apavorado. “Agressão, agressão covarde! Seja honesto na sua profissão !!!!”. Em pânico, larguei o microfone e disparei para trás da goleira. Só voltei no segundo tempo, quando o ânimo do “seu” Rolla amansou.

      O Grêmio ganhou fácil, mas não tive coragem de ir ao vestiário tricolor ao final, para me desincumbir da tarefa de gravar entrevista com o treinador para a resenha da noite. Pedi ao Fernando Barros, meu colega de prefixo, que o fizesse, e fiquei aguardando lá em cima. Meia hora depois volta o Fernando com a gravação. Perguntei: “... e aí, desancou prá cima de mim?”. Fernando ligou o gravadorzinho e sobre o lance da “agressão” ouvi, perplexo, a resposta de Foguinho: “... absolutamente, lance casual, não houve nada”. Aprendi, com a resposta, a única substituição que se dá em todos os grenais: SAI A RAZÃO, ENTRA  A  PAIXÃO!

(*) Jayme Eduardo Machado - Membro nato do CD do Grêmio