sexta-feira, 4 de março de 2016

Crônica

Gre-Nal para a (minha) história

Roberto Thomé (*)

Sou do tempo em que uma fila dupla de brigadianos dividia ao meio as gerais sempre abarrotadas do Beira Rio e do Olímpico. Para a gurizada que vivia com semanas de antecedência a expectativa de empunhar bandeiras, batucar incentivos, gritar o hino do clube, o Gre-Nal era mais do que um jogo, mais até do que um clássico, era um superclássico. O assunto de todas as conversas. Tão importante era o Gre-Nal que ele mandava nosso interesse pelas gurias de Petrópolis para o banco de reservas. E quando chegava o grande dia, a turminha se separava. Eu, o Marona e o Chico Daniel para um lado, o Sérgio para o outro. Não tinha acordo.

Beira Rio ou Olímpico, não importava o estádio. A gente chegava cedo, se aboletava no cimento, passava horas e horas à espera do jogo. Nossas mães preparavam lanches, sucos e frutas com esmero. A recomendação da querida dona Lorena era infalível: "Come tudo e cuidado com as brigas, Beto! E fiquem sempre juntos".

A monotonia daquelas manhãs e tardes intermináveis era quebrada pelas laranjas que voavam de cada lado e pelos saquinhos de plástico cheios de um líquido amarelo, que você bem sabe qual é, arremessados com pontaria certeira. O banho daquele mau cheiro algumas vezes foi inevitável. Funcionava na nossa cabeça como um rito de passagem, o que nos consolava diante das pequenas humilhações. As brigas estouravam quando menos você esperava. O pau comia entre dois, três, às vezes quatro adversários, mas a turma do deixa disso agia rápido. O objetivo era acabar com os desentendimentos antes que os cassetetes dos brigadianos tivessem tempo de cantar nas costas e nos braços dos valentões. Para o bem de todos, a maioria dos entreveros acabava ali mesmo.

Bons tempos de torcedor aqueles.

Como jornalista, meu primeiro Gre-Nal foi uma experiência desconcertante, inesquecível. Corria o ano de 1980 e o maior craque da história do Internacional fazia sua despedida de Porto Alegre. Falcão viajaria dias depois do clássico para a Itália, onde passaria a desfilar a classe altiva de quem "não conhecia a cor da grama" com a camisa do Roma.O Gre-Nal importante, histórico, mereceu a presença do então general-presidente João Batista Figueiredo. Ele tinha ido ao Rio Grande do Sul para inaugurar a Fenarroz (Feira Nacional do Arroz).

No intervalo, o assessor de imprensa da presidência, Marco Antonio Kramer, reuniu os repórteres e passou a orientação:

- Pessoal, o Presidente vai dar entrevista, mas só vai falar sobre futebol. Ok? Vamos lá.

Antes de ir para o Estádio Olímpico, ainda na redação da RBS TV, eu tive uma rápida conversa com o chefe de reportagem, Fernando Guedes. Coloquei que, provavelmente, teria a oportunidade de fazer uma pergunta para o Presidente, caso houvesse uma entrevista coletiva. "E aí, vale uma perguntinha sobre política"? Guedes pensou durante breves segundos e deu a dica: "Pergunta pra ele sobre como anda a abertura política". Valeu, beleza! E lá fui eu para o Gre-Nal.

(A "Abertura Política" foi um lento e gradual processo de distensão da ditadura militar que começou em 1974 com o governo do general Ernesto Geisel e terminou em 1985 com o mandato de João Batista Figueiredo).

Encorajado por Fernando Guedes, tentei emplacar a pergunta depois das questões combinadas feitas por dois ou três colegas.

- Presidente, como está o processo de abertura política?

Depois do chamado silêncio ensurdecedor, que não durou mais do que dois segundos, o Presidente explodiu seu desconforto berrando para os assessores: "Eu não disse que só falaria sobre futebol"?!!!?

- E você, fulminou ele vermelho de raiva na minha direção, você vai se arrepender disso!!!

A minha resposta de bate-pronto, juro, foi no puro reflexo.

- Presidente, o senhor está num estádio de futebol, mas continua sendo Presidente da República...

Desnecessário dizer que o homem virou uma fera e que a entrevista cuidadosamente armada por Kramer acabou naquele instante.

O Gre-Nal? Bem, o Gre-Nal...

(*) Roberto Thomé - Repórter da Rede Record/SP e Editor do blog www.robertothome.com.br