Locke, Descartes e Lincoln do Grêmio
(A Filosofia explica o talento no futebol?)
Thiago Suman (*)
John Locke, filósofo britânico, legou para a humanidade a epistemológica teoria de que o indivíduo é uma tábula rasa – ou folha em branco -.
Locke rompeu com a teoria inatista de Descartes de que éramos nós, seres humanos, dotados de certos conhecimentos já desde o nascimento. Ele se debruçou na ideia de que nascemos como tela a ser pintada com as tintas do conhecimento adquirido pelo ferramental da experiência.
Que bela rivalidade se estabelece no eixo dessas duas correntes de pensamento. E qual é capaz de explicar melhor as habilidades e a virtuose de jogadores como a pérola tricolor: Lincoln?
O esporte é aquisição de instrumentos físicos e psicológicos ou o sujeito carrega consigo do ventre pro berço, do berço pro campinho, do campinho pro estádio, esse repertório de possibilidades que o difere de centenas, de milhares?
O futebol não é meramente um esporte de contato como resolutamente alguns cronistas o classificam - de maneira a banalizar a necessidade da aplicação intelectual que se exige dentro das quatro linhas -.
O futebol é místico. E não é, absolutamente, agnóstico ou Laico. É politeísta.
Quando tentamos explicar o que escapa da compreensão racional, nós, apreciadores do mais popular desporto de praça evocamos os “Deuses do futebol”, tais quais os gregos, que se amparavam no mito repassado pelos poetas-rapsodos para justificar tudo, antes do surgimento dos primeiros filósofos.
Seja coberto do manto misterioso do inexplicável dom, seja pelo agregado de experiências em tentativa e erro de sua aplicação, seja pelo aporte de conhecimentos advindos desde o nascimento, atletas como Lincoln são raros e de cedo se percebe sua exclusividade, seu entalhamento diferenciado.
A tal da estrela que brilha é a cartucheira carregada de munição para os mais variados momentos do jogo. Com autonomia, com liberdade, com perfil multifacetado e que, apesar, de pouca idade, corresponde aos exigentes contextos com extrema naturalidade. Tudo isso faz mexer o caldeirão de um aspirante a craque.
Veja bem, eu disse aspirante. Para o atleta de potencial que ainda está no brete do sucesso, qualquer caminho tortuosamente tomado, se faz derrocada -em alta rotação -. Muitos padeceram no quarteirão de Hades – no mundo inferior - das oportunidades perdidas.
É preciso um lastro forte dentro da instituição para que se preserve e blinde essa ascendente personalidade do futebol. É preciso que ele seja instruído a executar seu papel em performance e não com o business que lhe rondará a partir desse rompante magistral.
Por volta dos 17 anos a transição do indivíduo se dá em todas as esferas: intelectual, social, cultural e profissional.
Lincoln pode florescer como um dos grandes nomes dessa geração, tem tudo para deixar seu nome gravado nas paredes da novíssima Arena tricolor e pode palpitar com a expectativa de voos altos – como seleção e Europa -.
Ao natural, esse futuro pode ser lido na palma da mão dos craques, só é preciso que use cinto de segurança para os trancos da carreira, especialmente, agora.
Descartes x Locke. Mito x Logos. Enfim...
O mundo é sempre estabelecido no eixo da antítese, que acabou polarizando o esporte bretão com a rivalidade de equipes – como nosso Grenal – e essa composição Yin Yang se dá também dentro de cada atleta com destino promissor. Que Lincoln possa ocupar lá na frente, seu espaço no panteão sagrado do futebol brasileiro dos descendentes de Garrincha, Pelé e outras lendas dos gramados.
(*) Thiago Suman – Radialista, narrador, apresentador na Rádio Grenal e professor universitário