terça-feira, 15 de março de 2016

Artigo

Lições que Cuca traz

Roberto Thomé (*)

Cuca foi jogador do Palmeiras no ano de 1992 e desde o momento em que virou treinador alimentou o sonho de comandar o futebol do clube. Aliás, era até mais do que isso, quase uma obsessão. Depois de idas e vindas por vinte clubes do futebol brasileiro e uma saída para a China a fim de enriquecer até a décima primeira geração de sua família, a oportunidade, enfim, chegou. Agora ele terá que provar que esta fixação pode dar um bom caldo em tempo de salvar o Palmeiras na Libertadores.

Na bagagem, Cuca traz a experiência recente de uma trajetória vitoriosa no Atlético Mineiro, onde foi campeão estadual e da maior competição sul-americana. A passagem pelo Shandon Luneng, sem título nem classificação para as copas asiáticas, pode ser descartada. Do campo propriamente dito, Cuca tem referências importantes e os anos de estrada que revelaram um ótimo camisa 8. Não um craque, mas um jogador moderno que se dividia muito bem entre as funções de marcação, criação e chegadas com qualidade ao ataque.

Cuca teve seu melhor momento como jogador quando defendeu o Grêmio no final da década de 80. Aquele time dirigido pelo técnico Rubens Minelli era chamado de Grêmio-Show no Rio Grande. Cuca tinha como companheiros Mazaropi no gol, Cristóvão Borges e Bonamigo no meio de campo, Marcos Vinícius e Jorge Veras no ataque.

Um episódio muito especial ocorrido em 1988 serviu como enorme aprendizado que Cuca carrega até hoje. Falo do "Gre-Nal do Século". O clássico que Grêmio e Internacional disputaram pelas semifinais do Campeonato Brasileiro e que, por uma dessas confusões que só o nosso calendário proporciona, foi realizado no dia 12 de fevereiro do ano seguinte.

O time do Grêmio era superior, tinha mais força coletiva e os melhores jogadores e, no entanto, quem saiu de campo no Beira Rio com a vitória diante de 80 mil torcedores foi o Inter de Abel Braga. Vitória espetacular, épica, por dois a um e com um jogador a menos desde os 37 minutos do primeiro tempo.

Aquele Gre-Nal não sai da cabeça do novo técnico do Palmeiras. Perder o jogo depois de massacrar o rival com bolas na trave e de jogar no lixo várias oportunidades até a altura dos 20 minutos do segundo tempo foi demais para Cuca: "O torcedor fala: Ah! O jogador perdeu, vai para outro time e acabou. A gente é que sofre. Não é assim, não. Eu sofro até hoje por causa daquele jogo", disse ele em entrevista ao SportTV tempos atrás.

O engraçado nisso tudo foi uma decisão tomada por Cuca dois ou três dias antes do clássico. Confiante na reconhecida superioridade do Grêmio, ele foi a uma concessionária definir a compra de um carrão da época. "Eu tinha acertado a compra de um Monza. Era o bicho (prêmio) do jogo. Me daria um Monza. Já tinha reservado lá na Simpala. Monza chumbo. Fazer o quê... (risos).

Para Cuca, o lado triste da derrota foi ver de dentro do ônibus que saia do Beira Rio a torcida do Grêmio queimar um boneco que o representava como o melhor jogador do time. "Essa foi uma coisa que me marcou muito porque ali eu tive a exata noção do que você significa no futebol. Do quanto de um momento para outro as coisas podem mudar na tua vida". Uma realidade cruel que o fez tirar do "Gre-Nal do Século" a seguinte conclusão: "Por incrível que pareça o que mais marca a gente são as derrotas, não são as vitórias".

Lições como esta certamente ajudarão Cuca a desenvolver o trabalho que começa esta semana no Palmeiras.

Em tempo, o Internacional acabou derrotado na decisão daquele Campeonato Brasileiro pelo Bahia.

(*) Roberto Thomé – Jornalista, repórter da Rede Record/SP – Editor do blog www.robertothome.com.br