Roger e a hora de mudar
Roberto Thomé (*)
Chegou a hora do emergente e promissor técnico Roger Machado mostrar o seu valor e fazer o Grêmio andar pra frente de novo. É incrível como aquelas excelentes atuações, algumas brilhantes até, que garantiram a terceira melhor campanha no Brasileirão do ano passado, se perderam em algum lugar desta nova temporada. Depois de dois desempenhos assustadores fora de casa, contra o Toluca na estréia da Libertadores e na semana passada diante do San Lorenzo em Buenos Aires, o chamado ponto de não retorno desafia o treinador. Ou o Grêmio se reinventa nestas três semanas que faltam para o jogo decisivo contra a LDU no Equador, ou a oportunidade de conquistar um título, no caso um título continental, vai passar mais uma vez.
E as mudanças, que a essa altura do campeonato estão caindo de maduras, nem passam por novos conceitos de futebol ou por um esquema tático diferente. Não é isso. As idéias de Roger continuam corretas, atuais. O problema do Grêmio tem a ver com desempenhos individuais, com jogadores que estão devendo e que não conseguem sequer dar sinais de melhora. Não há consistência coletiva capaz de resistir à queda de rendimento em todos os setores do time.
Os nomes, obviamente, são os de Wallace Oliveira e Wesley na lateral direita, de Marcelo Oliveira na lateral esquerda e de Giuliano no meio de campo. Everton e Edinho são casos à parte. Eles apenas estão guardando lugar para Wallace e Bolaños. Douglas até agora não repetiu o que fez no ano passado, mas é do pé esquerdo dele que ainda saem as melhores e mais inteligentes jogadas. Nas laterais falta qualidade, as contribuições de quem é escalado são pífias. Preocupante mesmo é o momento de Giuliano. Outro dia, numa discussão acalorada, um torcedor corneteou o futebol do meia dizendo que ele está jogando de uma forma muito parecida com a de Kleber Gladiador, dando "bundadas" nos adversários sem fazer os lances evoluírem.
Este é o momento de definição. Roger precisa mexer na escalação, sacar do time quem não vem justificando sua presença em campo. E aí é que está o complicador. Roger se vê obrigado a substituir jogadores experientes, os cascudos que treinadores de todas as ideologias adoram, e romper com acordos de bastidores que garantem sua autoridade em campo. É assim que o futebol funciona aqui, na Europa, em Burkina Fasso. São eles, os cascudos, os jogadores que seguram a onda dos "professores" nos momentos delicados. Mas, fazer o que. Nas laterais a solução é a direção enfiar a mão no cofre e investir em contratações. Não tem jeito. No meio de campo, Lincoln pede passagem. Pode perfeitamente jogar no lugar de Giuliano e ser o meia ofensivo que os atacantes exigem como companheiro.
Neste momento delicado, Roger pode muito bem olhar para um exemplo dado pelo seu mentor e melhor treinador em atividade no futebol brasileiro. Depois de ganhar tudo em 2012 e de botar a cereja do título mundial no bolo corintiano, Tite insistiu no ano seguinte com jogadores descendo a ladeira técnica e sem a mesma motivação para perseguir novos objetivos. Cumpriu um compromisso de lealdade com quem deu as melhores respostas ao que pedia naquela temporada vitoriosa, mas quase morreu abraçado com eles. Houve um jogo emblemático no Campeonato Brasileiro de 2013 que quase custou seu cargo. O Corinthians foi goleado por quatro a zero pela Portuguesa - sim, a mesma Portuguesa que foi rebaixada para a Segundona no tapetão - e o Gaúcho de Caxias por um triz não foi demitido. Escapou por pouco.
O desapego a certas convicções às vezes é necessário. Pelo bom andamento dos trabalhos e, enfim, pela própria sobrevivência.
(*) Roberto Thomé – Jornalista, repórter da Rede Record/SP e editor do blog www.thome.blogspot.com