É saudável não priorizar, no futebol?
Carla Seabra (*)
Para começo de conversa, hoje vamos entrar de mansinho, sem analisar o futebol desta ou daquela equipe, afinal, tudo está recém começando. Então, o papo é outro. Veja se concorda comigo.
Entra ano, sai ano, e o discurso é o mesmo: “vamos priorizar a competição xis”. Sim, aquela que tem mais nome, que paga prêmio maior, que dá mais visibilidade. Mas eu pergunto: isso não é um tiro no pé? Porque, ao priorizar uma única competição, vai que não dá, e aí, como ficam as chances de buscar outro título? Todo mundo lembra o que aconteceu com o Inter em 2015. O “quase” não serviu para muita coisa.
Desta vez é o Grêmio quem tem uma Libertadores da América pela frente. Antes dela, começam a Liga Sul-Minas-Rio e o Gauchão. O pobre regional que muitos torcedores fazem pouco, mas que todo mundo gostaria de levantar a taça. Será que eles são competições menores? Jogos-treino? Ninguém tem vontade de levantar um desses canecos? Não sei a opinião do grupo tricolor, mas eu não acredito em “menos” ou “mais” no futebol. Título é título.
Na minha opinião, com um bom planejamento físico e técnico, é possível não priorizar uma única competição, mas dar o mesmo valor a todas, construir os títulos em cada uma delas, aproveitando o que de melhor elas oferecem. Que uma sirva de preparo e fortalecimento para a outra e, desta forma, criando-se um círculo virtuoso. Ainda mais no caso do Grêmio, que tem um grupo modesto, em termos de nomes de mercado, mas que pode ir longe com a gurizada. Afinal, o próprio treinador Roger Machado não foi visto com certa desconfiança, pelo mercado, em 2015, mas findou o ano como revelação do Campeonato Brasileiro e terceiro colocado com louvor?
Aliás, as categorias de base, para a dupla Grenal, estão entrando o ano como promessa de bons resultados e conquistas. Responsabilidade e tanto! E é justamente aí que entra a razoabilidade do treinador. Exigir comprometimento, desejar o possível, acolher o incontrolável e orientar para o futuro. São estes jovens que, bem orientados, podem fazer a diferença na construção dos títulos. Falo em construção e não busca, porque quando buscamos é sinal de que aquilo que desejamos está fora de nós. Por isso a importância de construir, pois depende da nossa determinação.
Sim, é prudente não priorizar uma única competição. E, sim, é saudável fazer de todas elas a meta principal, o objetivo, o foco. Juntar taças, pegá-las uma a uma. Seja o time que for. Por que nenhum tem o direito de arrancar esse sonho do torcedor. Afinal, taça é taça. E todos querem comemorar a conquista de uma.
* Carla Seabra - jornalista na Rede Record