sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Artigo

Preciso falar sobre Platini

André Malinoski (*)

Michel Platini é francês, tem 60 anos e foi um genial camisa 10 dos anos 1970 e 1980 do século passado. Isso todo mundo sabe, assim como todos sabem que o ex-jogador teve uma passagem como técnico da seleção francesa, além de ter sido um dos cabeças do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 1998 e presidente da UEFA.

Sempre admirei Platini, especialmente pelo que o ex-craque promovia nos gramados pela Juventus, da Itália, e pela própria equipe da França. Não lembro dele em ação pelos times anteriores, pois eu era muito pequeno. Recordo que se havia alguma partida com ele em campo, eu corria para a frente da televisão e o acompanhava com os olhos atentos, simplesmente encantado pelo variado recital de suas jogadas.

Platini era um solista, era o regente da orquestra e colocava a bola onde queria, ora com passes curtos e precisos, ora com lançamentos que pareciam não ser de verdade. Eu esfregava os olhos e pensava que não poderia ter visto o que acabara de ver. Platini, além disso, marcava belos gols de falta e em cobranças de pênaltis.

Quando percebi, eu tinha revistas, reportagens, imagens, pôsteres, camisetas, fitas de VHS (naquela época não existia internet e DVD) com a carreira do francês. Eu acho que sabia e tinha mais coisas sobre Platini do que o próprio Platini.

Comemorei muito a conquista do título da Eurocopa de 1984 pelos Bleus. Foi a primeira taça expressiva dos franceses, e Platini marcou nove gols em cinco jogos. Esse recorde pessoal dele de artilharia em uma única edição da Euro até hoje não foi ultrapassado.

Mais impressionado fiquei no ano seguinte quando Platini foi campeão mundial interclubes pela Juve diante do time do Argentinos Juniors em Tóquio. O franzino meio-campista marcou um gol em penalidade e deu a assistência para Laudrup anotar o outro. A partida terminou empatada por 2 a 2, e os italianos venceram nos pênaltis por 4 a 2. Platini converteu a última cobrança e foi eleito o craque da decisão.

Naturalmente, eu também apreciava outros grandes jogadores, como Zico, Falcão e Maradona. Mas era Platini que me cativava por sua técnica muito apurada. A imprensa esportiva também reconhecia suas virtudes e o elegeu por três oportunidades consecutivas o melhor jogador europeu (1983, 1984 e 1985). A eleição era feita pela Revista France Football, pois a Fifa ainda não realizava essas escolhas.

Mas a vida segue e o mundo gira, assim como a carreira de Platini. Em 2007, vestiu outro uniforme – o de cartola na UEFA, principal entidade do futebol europeu. Nestes últimos nove anos, o ex-capitão da seleção nacional atuou nos gabinetes e seu nome começou a ser cogitado para concorrer a presidente da FIFA. Parecia o caminho natural, um ex-jogador e ex-técnico chegar, enfim, ao topo do futebol fora de campo.

Então estourou o escândalo de corrupção sem precedentes na FIFA em 2015. Houve prisões, demissões e banimentos. Platini acabou afastado das atividades ligadas ao futebol por oito anos, punição reduzida para seis anos nesta semana. Motivo: teria recebido de Blatter 8 milhões de reais por um trabalho realizado para a FIFA entre 1999 e 2000. O francês recebeu a fortuna digna de um prêmio de loteria apenas em 2011, o que chamou a atenção dos investigadores do caso. O agora ex-mandatário da UEFA teria violado diversos artigos do Código de Ética da própria FIFA.

Platini não precisava disso. Todos os parágrafos anteriores dessa coluna mostram que sua carreira foi brilhante enquanto a bola esteve em seus pés. Quando escolheu os gabinetes poderia ter marcado outro golaço como nos velhos tempos, mas mostrou-se um perna de pau. Eu ainda esfrego os olhos, mas agora por não acreditar em tudo o que tenho lido sobre ele. Platini, o meu ídolo, sai de cena pela porta dos fundos do futebol.

(*) André Malinoski – Editor de Esportes de O SUL e autor do livro “Os Gigantes Estiveram Aqui”