Ídolos de barro
Roberto Thomé (*)
Ídolos são imprescindíveis. Em qualquer esporte e mais ainda no futebol. Arrastam multidões por onde passam. Alimentam paixões, despertam os mais puros sentimentos, fazem o torcedor levitar de alegria alguns andares acima do nível do mar quando realizam todas as suas fantasias. Se os ídolos são formados nas categorias de base, então, o relacionamento é ainda mais intenso. São crias da casa tratadas com todo carinho, intocáveis. Só têm virtudes. Bem, tudo isso, claro, num mundo ideal em que os amores são plenamente correspondidos.
O problema é que a realidade insiste muitas vezes em provocar um turbilhão neste mar de rosas. E no futebol, quando ela chega, o efeito é de um tsunami. Arrasador. Como na nossa vidinha, a realidade nua e crua ensina que um relacionamento perfeito entre ídolo-clube-torcida só é eterno enquanto dura. Infelizmente.
Dias atrás, os torcedores do Santos experimentaram a mesma dor que há cinco anos afastou definitivamente Ronaldinho Gaúcho dos gremistas. A sensação foi semelhante àquela combinação explosiva de decepção, frustração e traição. Por um punhado de reais a mais, Robinho deu uma pedalada no clube que o revelou e assinou um contrato por duas temporadas com o Atlético Mineiro. Disse o boleiro friamente: “A identificação que tive com o Santos foi muito bonita. Dei a vida pelo Santos e agora vou dar a vida pelo Galo. O futebol é um negócio”.
Negócio. É isso. O vil metal acima de todas as coisas. Como fizeram Assis e seu irmão mais famoso com o Grêmio na maior cara de pau, Robinho lançou uma bola surpreendente nas costas do Santos. Foi a história se repetindo como farsa mais uma vez. Mas vá explicar para a torcida do Santos que o futebol é um negócio, que a lei da oferta e da procura domina o mercado e que quem pode mais chora menos. A reação dos santistas foi além da indignação porque sempre que precisou Robinho ganhou no Santos o chamado porto seguro para retomar a carreira e voltar à seleção. Foi assim, por exemplo, quando retornou de sua primeira e fracassada passagem pelo futebol europeu em 2010 e também no ano passado, antes de se transferir para o futebol chinês.
A imagem de Robinho segue estampada no site oficial do Santos, mas ela chegou a ser apagada como faziam na ex-União Soviética décadas atrás com quem era considerado inimigo do regime. Segundo a diretoria, a “mágica” estalinista foi obra de hackers. A imagem de Robinho só não resistiu à investida dos torcedores mais raivosos nos muros do Centro de Treinamento “Rei Pelé”. Pichações desfiguraram completamente a representação do ex-ídolo. Apesar de tudo, dos corações partidos, das feridas que não vão cicatrizar, a história de Robinho no Santos é rica e não será destruída. Mas ganhou uma enorme mancha, sim, como a de Ronaldinho Gaúcho no Grêmio.
Amigo, nossos ídolos já não são mais os mesmos...
(*) Roberto Thomé – Repórter da Rede Record e Editor do site www.robertothome.com.br.