sábado, 2 de abril de 2016

Artigo

Falta de ousadia

Gilson Piber (*)

Não discuto a seriedade do trabalho de Dunga no comando técnico da Seleção Brasileira. Porém, na atualidade, não é o profissional mais capacitado para dirigir a equipe nacional. Antes dele, na minha ótica, tem no mínimo uma dezena de técnicos mais capazes. Cito, rapidamente, cinco: Tite, Muricy Ramalho, Levir Culpi, Paulo Autuori e Mano Menezes (injustiçado quando foi demitido da Seleção). Destaco, ainda, Cuca, Marcelo Oliveira, Ricardo Gomes, Abel Braga e Dorival Júnior. Todos com mais rodagem e conquistas.

Falta a Dunga ousadia para mudar a Seleção Brasileira, uma equipe ainda sem padrão de jogo definido, futebol feio, burocrático e ineficiente. O técnico insiste com o aproveitamento de dois volantes praticamente restritos a marcação, como são Luiz Gustavo e Fernandinho. Nem Elias consegue dar uma boa resposta quando está em campo, ao contrário do que faz no Corinthians.

Só depois de estar com o placar adverso para o Paraguai, Dunga resolveu tirar seus volantes defensivos para o ingresso de Hulk e Lucas Lima. Por que não utilizar um único volante e recuar Renato Augusto, ganhando uma saída de bola melhor? O time vai ficar “muito faceiro”?
 É verdade que o único craque da Seleção é Neymar. No entanto, o jogador do Barcelona está apagado diante do fraco desempenho coletivo do time e da forte marcação adversária. Sem falar do excesso do atacante nas reclamações com o árbitro, mesmo sendo capitão da Seleção. Por estar na Europa há algum tempo, Neymar já deveria ter aprendido que tal atitude não é acertada.

Sempre ouvi dizer que o momento de cada jogador deveria ser levado em conta na hora da convocação. O zagueiro Geromel, do Grêmio, pede passagem para receber uma chance na Seleção desde 2015. Sequer é convocado. A volta de outro zagueiro, Thiago Silva, do PSG, também merece ser analisada, independente dos fatos ocorridos na Copa do Mundo de 2014 e da Copa América de 2015.

Além de não arriscar nas mudanças nem criar algo novo no selecionado, Dunga é teimoso, principalmente com a imprensa. A sua mania de perseguição ainda da época de jogador, desde o Mundial de 1990, parece não ter sido esquecida, apesar da volta por cima como capitão do tetra, em 1994, nos Estados Unidos. As entrevistas coletivas do técnico são como canhões prontos para atirar no que está pela frente. Isso não contribui em nada na relação de Dunga com os jornalistas. Pelo contrário, só deixa a convivência ainda mais estremecida.

Sem empolgar e com resultados insatisfatórios na seleção principal do Brasil, Dunga quer ainda dirigir o time olímpico nos Jogos do Rio de Janeiro. Não há necessidade disso. É mais um equívoco do técnico. De concreto, Dunga já não goza mais do mesmo prestígio que tinha nem no meio dos cartolas da CBF. Um sinal de mudança? O tempo dirá.


(*) Gilson Piber - Jornalista da UFSM, comentarista da Rádio Guarathan, de Santa Maria (RS), e professor do curso de Jornalismo da Unifra.