sexta-feira, 25 de março de 2016

Começo de Jogo

Cruyff, talentoso e insubstituível

Júlio Sortica (*)

Sem dúvida, Johan Cruyff é um dos imortais do futebol mundial. Não me arrisco lhe dar uma classificação numa tabela que tem Pelé no topo, depois Maradona.... depois... depois não sei. Há tantos e grandes craques que ficaria difícil um julgamento puro  e simples. Mas Cruyff está entre os cinco primeiro, talvez, disputando centésimos de pontos com Beckenbauer, Platini, Garrincha, Puskas. Sua morte traz à lembrança uma seleção fantástica que merecia ter sido campeã por ter conseguido a integração entre o futebol força, de marcação compacta, implacável, com a arte do toque rápido, da velocidade, do jogador multidisciplinar que não guardava posição.

Sem dúvida, Cruyff foi o coordenador, o comandante dos pensamentos e estratégias do técnico Rinus Michels, que deu vida ao Carrossel Holandês, ou à Laranja Mecânica – em função da cor da camiseta e de um filme famoso na época. O jogador tinha na inteligência e no bom preparo físico um diferencial que determinava nítida vantagem sobre os adversários. Como um jogador de xadrez, parecia projetar as ações futuras e suas possibilidade de sucesso. Foi assim quando ajudou a consolidar o Ajax, de Amsterdam, a própria seleção holandesa e depois imortalizado no Barcelona.

Infelizmente não vi Cruyff jogar ao vivo, pois na Copa de 1974 era estudante de jornalismo e ainda não trabalhava, gostava mais de jogar futebol do que analisá-lo. Mas lembro de ter visto a Copa pela TV e torcido pelo Holanda – mesmo sendo admirador do Kaiser Beckenbauer. Tive contato com a Holanda na Copa de 1978, na Argentina. Eu era repórter da Folha da Tarde e fui escalado para compor a grande e talentosa equipe da Caldas Júnior – integrada pelo Correio do Povo, Folha da Tarde, Folha da Manhã e Rádio Guaíba – que levou 28 profissionais para o país vizinho.

Em duas ocasiões estive na concentração da Holanda, na localidade de Potrerillos, em Mendoza, perto da Cordilheira dos Andes, junto com o colega Mário Marcos de Souza, que era da Folha da Manhã. Aí sim, pudemos ver os craques holandeses, mas sem Cruyff -  que se recusou a jogar na Argentina comandada por miliares -  e sem Rinus Michels. O time  titular, porém, foi quase uma repetição da equipe que assombrou o mundo em 1974: Jongbloed; Poortvliet, Ruud Krol, Wim Jansen (Suurbier), Hann, Rene Van de Kerkhof, Willy Van de Kerkhof,  Resenbrink, Neeskens, Rep e Bandts. O técnico Erns Happel substituiu Rinus Michels, Neeskens passou a fazer a função de Cruyff e a grande novidade foram os irmãos gêmeos Van de Kerkhof. O antigo líder fez falta, assim como Rijsbergen e Hanegem. Mas a Holanda foi até a final, perdendo para a Argentina por 3 a 1.

Ficou uma dúvida: se Cruyff tivesse jogado na Argentina, a Holanda teria sido campeã? Ninguém saberá, pois o tempo não volta e nesse caso não é possível fazer simulação, mas que a equipe teria ficado mais forte, isso sim. Fica assim, a saudades do bom futebol do holandês provocador, talentoso e eficiente.

(*) Júlio Sortica – Jornalista – vice-presidente da Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos/ACEG-RS