Seleção no limite
Roberto Thomé (*)
Difícil ver a seleção. É tudo um sacrifício. Fazer a bola sair redondinha da defesa, ultrapassar o meio de campo e chegar ao ataque com a qualidade que se exige do futebol brasileiro parece um esforço descomunal para os jogadores. O jogo simplesmente não flui. Daniel Alves, que não consegue repetir na seleção o nível de suas atuações pelo Barcelona, matou a charada depois do empate em dois a dois no Paraguai: "A gente tem que melhorar, a gente deixa muitos espaços". É isso. Faltam padrão de rendimento confiável e a chamada compactação. Questões para Dunga resolver enquanto o tempo ainda corre a seu favor.
Desta vez a defesa quase não comprometeu. Quase, a exceção do segundo gol paraguaio quando o próprio Daniel Alves vacilou e permitiu que Benitez se antecipasse para entrar livre na área. Alisson foi o ótimo goleiro de sempre e Gil e Miranda formaram uma boa dupla de zagueiros. Os volantes, que deveriam ter a capacidade para dar início aos movimentos de transição, foram muito limitados. Mais uma vez. E acabaram substituídos no segundo tempo.
Este é o ponto. Fernandinho e Luis Gustavo são duas figuras meramente burocráticas. Um vive mais preso do que o outro às funções de contenção. Marcam quando o Brasil é atacado e quando recuperam a bola marcam também. Têm qualidade próxima de zero para se aproximarem dos atacantes. Aliás, desde a Copa do Mundo deu para perceber que Fernandinho e Luis Gustavo nunca serão mais do que volantes razoáveis. E como Dunga já mostrou que não está disposto a rever seus conceitos sobre o esquema de jogo nem a botar gente tecnicamente mais sofisticada naquele setor, a não ser em situações de emergência como foi o caso do segundo tempo no Defensores Del Chaco, podemos arquivar qualquer esperança de evolução.
Pensar que possa cair uma ficha de ousadia e que Dunga passe a escalar três jogadores versáteis no meio de campo, como Elias, Renato Augusto e Lucas Lima juntos e misturados, parece utopia.
Sem criatividade no meio de campo, Willian, Ricardo Oliveira e Douglas Costa pouco puderam fazer diante da defesa bem armada do Paraguai. As modificações por atacado que Dunga promoveu para chegar ao empate (Hulk, Lucas Lima e Jonas nos lugares de Fernandinho, Luis Gustavo e Ricardo Oliveira) deram certo muito mais em função da opção do Paraguai de só se defender depois de abrir dois a zero do que de uma bem pensada organização tática.
No fim das contas, o que restou desta saga que acabou num empate salvador foi que os jogadores finalmente se tocaram de uma das verdades mais simples e objetivas do futebol: quando a coisa não anda bem na base da técnica, o coração tem que entrar em campo. Foi justamente isso que salvou a seleção e a pele de Dunga.
(*) Roberto Thomé - Jornalista, repórter da TV Record/SP e editor do blog www.robertothome.com.br